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Você pode estar se perguntando: por que fractoscópio?
À maneira do microscópio ou do caleidoscópio, o fractoscópio também é um instrumento de ver as coisas. Neste caso, é um instrumento que criei para visualizar as formas fractais, fragmentadas que compõem um todo.
Mais que um instrumento em si, o fractoscópio é uma forma de ver, um tipo de percepção. Gosto de me deter em um tema qualquer e analisar suas partes componentes, pois penso que pela compreensão dos detalhes chegarei à compreensão do todo.
Esta é a forma como vejo a literatura e as outras artes em geral. Um mosaico neolítico de partes que se fundem e se misturam, turvando a visão minuciosa das partes.
Em nosso momento histórico atual, em que proliferam tantas vertentes e estilos, utilizar o fractoscópio parece interessante: com ele, podemos ver os pedaços coloridos que compõem nosso mosaico artístico-tecnológico tão rico e, talvez, compreender o espírito de nossa época.
TECENDO RELAÇÕES
Em 1995, escrevi:
Palavra-chave do novo milênio: AGREGAÇÃO. Agregação humana em todas as suas mais variadas formas. Networks, trabalho em equipe. Redes de Relações.
Networks, redes de relações.
De lá para cá, comecei a sentir isto cada vez mais presente e palpável.
A internet e seu ciberespaço telemático só reforçaram esta sensação.
Na internet, senti na pele que a História não se cristaliza nas páginas dos historiadores.
Percebi que todos que vivem (n)a rede escrevem a história de nosso tempo
nas linhas de e-mail, nos papos trocados em salas de chat, em frases repetidas em banners, nas colunas noticiosas dos e-zines, nos sites construídos como casas, cabanas de silício.
Se todos nós pararmos de escrever nossas histórias nas linhas digitadas que se propagam por linhas de telefone ou por cabos e ondas invisíveis, a rede não existe.
A grande rede virtual de relações só existe porque é criada pela imaginação de todos os que nela escrevem.

CONECTANDO SABERES
A linguagem dos novos tempos é a linguagem das misturas, ramificações, justaposições. É a linguagem das conexões.
Cada vez fica mais difícil pensarmos de outra forma que não seja hipertextualmente. Enxergamos o mundo com vários olhos, multimidiaticamente, e nossa percepção, adaptada aos tempos modernos, vem se transformando, fractalizando-se em multipercepções.
As redes telemáticas, bem ao espírito de nossa época, também têm essa linguagem de misturas, infundindo seu ritmo dinâmico em nós.
Nesta nossa rede plena de contatos/links, lidamos com uma importante variável chamada Tempo. Ninguém quer ver a mesma coisa sempre, tudo está em constante mutação. Principalmente as teorias. Conectamos conhecimentos como quem costura colchas de retalhos, como quem precisa de várias visões em lugar de uma só. Uma teoria só não faz mais verão.
Hoje, o que importa é fazer fluir a energia da transmutação das idéias, já que vivemos num tempo em que não existem mais conclusões, apenas considerações. Ninguém tem a palavra final, pois não existe uma imposição hierárquica rígida de valores no ciberespaço de dados.
Com a evolução das redes, a tendência é a convergência de todas as áreas do conhecimento, a tal ponto que não possamos mais saber com exatidão qual é qual, ou qual faz o quê. Precisamos nos preparar para o futuro que já desponta por entre os caminhos hipertextuais da história.
Já passamos da Era da Informação e, agora, como diz o filósofo francês Michel Serres, rumamos para a Era da Formação, ou Era do Conhecimento. Até porque a informação, por si só, não serve para nada, se não lhe atribuírmos uma função ou um sentido.
Mais do que mera informação, precisamos de conhecimento. E transformar informação em conhecimento - ou seja, processar dados e extrair deles informação útil para a construção de saberes - nada nem ninguém pode fazer para nós, exceto nós mesmos.

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